Fuá na Casa da Lu


RELAMPIANO

Composição: Lenine e Paulinho Moska

Tá relampiano, cadê Neném?
Tá vendendo drops no sinal pra alguém
Tá relampiano, cadê Neném?
Tá vendendo drops no sinal pra alguém
Tá vendendo drops no sinal...

Todo dia é dia, toda hora é hora
Neném não demora pra se levantar
Mãe lavando roupa, pai já foi embora
E o caçula chora pra se acostumar
Com a vida lá de fora do barraco
Hai que endurecer um coração tão fraco
Pra vencer o medo do trovão
Sua vida aponta a contramão

Tá relampiano, cadê Neném?
Tá vendendo drops no sinal pra alguém
Tá relampiano, cadê Neném?
Tá vendendo drops no sinal pra alguém
Tá vendendo drops no sinal...

Tudo é tão normal, tal e qual
Neném não tem hora para ir se deitar
Mãe passando roupa do pai de agora
De um outro caçula que ainda vai chegar
É mais uma boca dentro do barraco
Mais um quilo de farinha do mesmo saco
Para alimentar um novo João Ninguém
E a cidade cresce junto com Neném

---

A batida enlouquece. A melodia dramatiza. A letra impacta, desperta. A mistura é uma bomba aos ouvidos dos mais sensíveis. O que haveria por trás de "Relampiano", de Lenine e Paulinho Moska, que a um olhar mais superficial aparenta ser mais uma melodia bonita acompanhada de uma letra simples e comum? Sim, as palavras utilizadas em sua composição são simples, mas é em sua aparente simplicidade que se forma um belo de um paradoxo, pois a mensagem também é complexa e profunda.
Neném pode ser encontrado em qualquer sinal dessa cidade. Às vezes existem três ou quatro Nenéns em um só sinal, todos ocupados em suas atividades de sobrevivência. Todos endurecendo os corações e muitos não conseguindo manter a ternura (acho que os autores brincam com a conhecida frase guevariana: "hai que endurecer, pero sin perder la ternura" no trecho "hai que endurecer um coração tão fraco").

"Tudo é tão normal". E que com normalidade nós encaramos a situação de tantas famílias obrigadas a viver da marginalidade! É rotineiro encontrar com braços estendidos em nossa direção. É costumeiro desviar dos corpos semi-mortos que ocupam as calçadas. Famílias inteiras dependendo da humilhante esmola de todo dia. Nós apenas seguimos nosso caminho.

E, quem sabe um dia, a cada vez mais sofisticada e desenvolvida tecnologia produza uma forma líquida e colorida capaz de tornar invisível os seres miseráveis e, conseqüentemente, toda sua feiura. Talvez construam mais meia dúzia de casas populares afastadas dos grandes pólos de riqueza e ambicionem que toda a podridão da miséria não agrida os olhos dos mais limpos e não encha seus pulmões de miasmas.
Sigamos alternativas praticáveis e reais para a construção de uma verdadeira alternativa ou vivamos de sonhos e ações paliativas, que não cessarão com esse apartheid.



Escrito por Lu às 07h45
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04/09/2005 a 10/09/2005




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